quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Saturno: o retorno!

Cá estou, aos 28 anos, vivendo o famoso retorno de Saturno. Segundo a astrologia, Saturno emana a energia de Chronos, o deus do tempo. Quando nascemos, entramos pra roda do tempo, ganhamos de Saturno um tempo de vida para evoluirmos, aprimorarmos nossas virtudes, trabalharmos nossas dificuldades. Saturno é o professor da palmatória, metódico e conservador, ele ama aqueles que abraçam suas lições, mas pune sem pensar quem desperdiça seu tempo de aprendizagem. Distante da Terra, Saturno leva entre 27 e 29 anos para retornar exatamente ao ponto que estava no momento de nosso nascimento. Sempre recebemos aquela influência desse rígido professor, mas, como qualquer outro aspecto astrológico, seu poder é intensificado quando recolocado na posição de nosso nascimento.
A energia de Saturno é devastadora. Ele ensina pela experiência. Se aceitamos suas difíceis lições, se nos tornamos alunos aplicados, com o tempo (ele mesmo), Saturno nos concede maestria no que antes nos era uma limitação. Esse planeta atua diretamente no plano físico e nos força a aprender por meio da experiência. Saturno opera por padrões. Já notou que a gente sempre tem uma questão da nossa vida que parece um carma, sempre escorregamos na mesma casca de banana? Pois é, essa casca de banana representa uma lição, quando nos atentamos para ela e nos questionamos que raios aquela casca faz ali, eventualmente paramos de escorregar e, mais ainda, passamos a caminhar cada vez mais firmes e confiantes em nossos passos. Quando Saturno passa por nós, nos tira bruscamente tudo o que não nos serve mais e joga na nossa cara aquelas lições que teimamos em evitar... E que precisamos aprender!

No momento em que nasci, Saturno transitava pelo signo de Sagitário na minha Casa 7. A casa dos relacionamentos passava pelo signo da liberdade e da expansão. Eu, tão pisciana, tão disposta a doações e sacrifícios desnecessários, nasci com a missão de aprender a me relacionar em liberdade e compreender no que reside essa tal liberdade. Foram tantos traumas amorosos desnecessários, ou necessários, porque, sem saber, eu estava aprendendo. Minha vida amorosa foi feita de encruzilhadas, sempre tendo de escolher entre o amor e a liberdade, impetuoso impasse... Quanta dor. Saturno ensina pela dor. Nenhuma dor deve ser desperdiçada, a gente sempre aprende quando descobre por que dói onde dói. Mas esse ano eu abri os braços e aceitei meu professor. Não, eu não aprendi ainda, pelo contrário, levei surra atrás de surra. Saturno me mostrou muito nitidamente o que não serve para mim, apesar dessa minha Vênus em Peixes adorar uma ilusão. Quanta frustração, quanto carma recorrente dançou na minha frente pra me mostrar o caminho errado.

Mas Saturno me mostrou que há um caminho certo. A lição de Sagitário é abraçar a liberdade entendendo a própria individualidade. Expandir a mente, o corpo e o espírito. Eu sempre soube dar liberdade para o outro, mas sempre tive de me isolar pra conseguir respeitar a minha própria liberdade. Compreensão. Vim aprender a amar sem possuir e a ser amada sem me entregar. Há um equívoco romântico nessa noção de entrega, há quem acredite que para amar é preciso abrir mão de si pelo outro. Bobagem. No ano de Saturno, quantos oráculos não me mostraram que o amor que sinto deve emanar de mim e, a partir de minha própria elevação, atingir o outro. Quantas vezes me frustrei quando quis fazer meu amor nascer das mãos do outro. Do olhar do outro. Da compreensão do outro. Meu amor é meu. Meu amor só pode nascer de mim. E só chega no outro quando o faço transbordar. Aprendi a fechar meus olhos e emanar amor de mim. Essa é a verdadeira expansão. Essa é a verdadeira liberdade. Quando amo genuinamente, quando respiro amor e transbordo amor a quem quer que seja, eu já me sinto amada, é claro. Sou amada por mim. Para conseguir abraçar o outro, abraço primeiro a mim.
Eu vejo meu crescimento e só posso agradecer ao deus do tempo por cada uma das lições. Doloridas lições. O retorno de Saturno também é um momento de olhar para tudo que vivi até hoje. Lembro da menina que se escondia e queria morrer de tanto amar... Hoje dou risada, aquela garotinha nem sabia que não sabia o que era amor. Mas Saturno só concede bençãos a quem insiste em confiar. Mesmo quando mais sofria, algo em mim confiou. Por amor divino, soube reconhecer os passos da lição e confiei em mim. Sofri, claro, é assim que o plano físico compreende o que deve aprender. Mas confiei nos meus caminhos, nos meus oráculos. E fui me curando, fui me aceitando, fui confiando no caminho e, sincera e humildemente, nesse eu que trilha a estrada. Estrada. O tempo me fez mulher. Me fez segura. Hoje abandono não minha história, mas todos os traumas que já não sou mais eu. Hoje abraço, agradecida, todas as lições bem vindas, cada dificuldade que me ensinou e me fortaleceu. Essa é a verdadeira lição de Saturno. E eu abraço e agradeço. Sem medo. Deixa o tempo te ensinar!




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O avesso do espelho

Faz semanas que quero escrever no blog sobre os espelhos. Queria falar justamente sobre a necessidade (e dificuldade) de olhar no mais importante deles: o espelho da nossa alma. Mas quem disse que eu tive coragem suficiente para encarar meu próprio espelho pra poder falar disso sem hipocrisia? É, minha gente, às vezes (ou quase sempre) a teoria é muito mais fácil que a prática. Mas, nesse caso, escrever a respeito exige um reconhecimento, e esse reconhecimento é a própria materialização do tal espelho da alma. Tá confuso, né? Vamos ver se ao longo do texto eu consigo simplificar a coisa para nós todos!
Vamos começar pelo conceito do espelho. O que é que esse objeto encantado, tem de mais? O que tanto nos distrai, o que tanto nos seduz, o que tanto nos revela? Nas aulas de física, aprendi sobre o  caráter ilusório da imagem refletida. Nas aulas de história, aprendi que o espelho foi objeto-símbolo na sedução dos índios em troca da terra. O espelho de Harry Potter revelava os desejos inalcançáveis. O reflexo, em suas mil significações, a um só tempo matou Narciso e salvou Oxum. "Mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente", disse o Renato Russo. Espelho, espelho meu, obsessão de uma rainha. Ambiguidade de cristal: artefato mágico que esconde o que revela e revela o que esconde.
O problema do espelho é a imagem, quase sempre distorcida. Desde o reflexo do rio, vi uma imagem e dei a ela o meu nome. Quando envelheci, deixei que a imagem da velha fosse mais do que eu mesma. Quando me envaideci, deixei que a imagem de uma deusa se sobreposse a quem eu sou. Quando adoeci, liguei mil e uma câmeras, espelhos modernos na Era das Imagens. Eu não me via, não me enxergava. A imagem de mim, as mil imagens de mim, me distraíram de quem sou. Me colocaram na vitrine. Imagem distorcida. Escrava do espelho. Nesses novos velhos tempos, nunca sou minha imagem e minha imagem sempre parece ser mais que eu. Se feia: horrenda. Se linda: bem-quista. Se humana: mortal. Apenas mortal. Num mundo de instantâneos deuses, sou apenas mortal.
Essa é a realidade do espelho. Para se olhar no espelho, é preciso, primeiro, quebrar o espelho. Nada do que dizem que é minha imagem revela a realidade de quem sou. O sumidouro do espelho. Para reconhecer a eternidade de minha alma, preciso me ver humana. Preciso romper com as ilusões de tudo que sei que não sou. Não sou a imagem, sou o que nela se move. Eu sou a realidade de cada segundo. Eu sou a verdade. Qual é a minha verdade? Derradeiro espelho, espelho meu. Quem é que tem coragem de olhar no fundo de si? Eu, a deusa. Eu, a bruxa. Eu, humana. Quando vamos nos reconhecer? Imagem rompida: Sarah, te apresento a Sarah. Eis o dia que aprendo a me olhar sem me julgar. — Prazer, Sarah! — E aceito minhas dores. E aceito meu riso. E aceito todas as minhas potencialidades e, para tanto, todas as minhas responsabilidades. Aceito meus medos e minha coragem. Aceito minha inveja e minha bondade. Aceito meu desprezo e minha compaixão. Meu espelho é água corrente. É caleidoscópio. Eu sou todas e nenhuma imagem de quem acho que sou.
Por que é tão difícil? Por que demorei tantas semanas para conseguir escrever sobre isso? Porque, meus queridos, aprendi a ter vergonha de ser invisível. Ter vergonha de não ter imagem para refletir. Eis a verdadeira nudez. Como vou me despir assim? Mais fácil tirar a roupa que livrar-me dos disfarces. Espelho na frente de espelho, na frete de espelho, na frente de espelho, para nunca olhar no derradeiro: olhos com os olhos de minha alma. Temos medo de sermos humanos. Medo de nos reconhecer. Medo até de nos pegarmos no colo. Por isso nos disfarçamos. Por isso nos distraímos com as mil possibilidades do que poderíamos ser. Mas, eis-me aqui escrevendo. Eis-me aqui a finalmente buscar o último e primeiro dos meus reflexos. Jornada danada de se desbravar. Resolvi buscar em mim uma pessoa querida, que depende do meu colo. Apenas meu colo pode suprir minha própria dor. O espelho da minha alma, no fim das contas, é apenas (nunca pequeno, mas sempre simples) o tal do Amor.
O verdadeiro espelho: ora yê yê ô!


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Sobre como o Amor pode salvar o mundo

É muito comum encontrar algum texto meu por aí falando sobre Amor. Já perdi a conta de quantas vezes me chamaram de romântica ou mesmo de ingênua por causa da minha visão sobre o Amor. De fato, o Amor pra mim é uma bandeira, acho que é o propósito e a solução de tudo. Para mim, Amor é sinal e meio de (r)evolução. Para mim, o Amor é o que pode curar o mundo. E lá vem a ideia de que sou passiva demais ou utópica demais por acreditar que o Amor resolverá todos os nossos problemas. Mas, antes de qualquer coisa, acho bom contextualizar de que tipo de amor estamos falando aqui.
O que eu entendo por Amor é muito mais do que a concepção romântica e institucionalizada do que é amor. Note que eu escrevo de propósito Amor com A maiúsculo, não por acaso, porque pra mim Amor é Deus. Vamos subverter aquela máxima cristã: Deus é Amor? E se Deus não for somente uma entidade superior humanamente entendida como um ser barbudo em um trono suntuoso? E se Deus for essa energia transformadora que, de uma hora para outra, me faz querer abraçar alguém ou, ao menos, calçar seus sapatos? E se Deus for essa energia que se multiplica quanto mais próximos estamos da essência de algo, de alguém ou de nós mesmos? Bom, é isso que eu entendo como Amor. E, pessoalmente, para mim Deus é sim uma entidade suprema, mas o Amor também é, porque são a mesma coisa. Então, para definir, o tipo de Amor que estamos falando aqui é basicamente a energia que me faz me reconhecer no outro (e em tudo).
Pois bem, dito isso, é óbvio que não estou sendo romântica. O amor romântico nasce de uma ideia de possessividade, de autoritarismo, de sacrifícios desnecessários. Aliás, na minha concepção, o amor romântico é um artifício para que não vejamos o Amor real, é algo que nos confunde. Para começo de conversa, o amor romântico determina que devemos encontrar uma pessoa ideal que se encaixará perfeitamente nas nossas vidas e só seremos felizes quando isso acontecer, sem essa pessoa seríamos apenas metade de uma laranja. É aí que, por esperarmos alguém para nos completar, esquecemos de amar a nós mesmos e, quando conseguimos, somos vistos como egoístas. E mais, quando encontramos a suposta metade da laranja, esse amor deve superar todas as nossas outras relações, inclusive a que temos com nós mesmos, de modo que abrir mão de si vira prova de amor (como se o verdadeiro Amor precisasse de provas). Mais à frente, faço um texto sobre Amor Livre e a necessidade de desconstrução do amor romântico, mas o fato é que não, quando digo que o Amor pode curar o mundo, não estou sendo romântica.
E quanto a ser utópica? Curar o mundo? Parece papo de hippie pode crer, não é? Mas isso, como discurso, não me serve de nada. Para mim, Amor é prática, não teoria. Amor é se reconhecer no outro. Daí que vem a cura (e sim, o mundo está doente e não perceber isso é um dos piores sintomas). Se eu me reconheço no outro, não vou querer que ele sofra o que eu não quero sofrer. Se o outro sou eu, como posso querer que ele tenha menos oportunidades que eu? Se eu paro para sentir um pouquinho de empatia e "humanizar" meus inimigos, eu posso até não concordar com eles, mas não vou perder meu tempo disseminando discursos de ódio, vou é tentar entender e achar uma solução conjunta, sem disputas.
Isso quer dizer passividade? Creio que não. Sempre fui de luta, mas minha luta nunca foi cega. Sempre lutei por Amor, porque não suporto ver injustiça, porque não suporto ver o outro, que sou eu ou eu, que sou todos os outros, sendo maltratado só por ser quem é. No fim das contas, é uma luta por empatia sim senhor, porque só o que eu quero é que o outro se coloque no meu lugar. É uma luta por Amor. É claro que nem sempre vamos resolver a questão cantando mantras. É claro que às vezes teremos de ser duros para sermos ouvidos, mas o que queremos que ouçam é um "Eu também mereço. Eu também participo. Eu sou como você" e não uma disputa de poder. O grande problema que enfrentamos hoje em dia é que a luta por empatia tem sido esquecida e substituída pelo ciclo de ódio. Eu odeio quem me odeia e por ele sou odiado. E o ódio é multiplicado. E ninguém mais consegue se comunicar, porque o ódio é a ausência de Amor, é a impossibilidade de se reconhecer no outro, eu odeio tudo aquilo que não reconheço como sendo eu. E, no meio de tanto ódio, não lembramos mais pelo que lutamos, apenas lembramos de lutar. Todos os dias. Não queremos mais dialogar, porque o objetivo não é mais gerar empatia, fazer com que o outro entenda meu ponto de vista e vice-versa e tentar achar uma solução em comum. Só o que resta é a disputa incansável e insolúvel. E um mundo doente.
Pode parecer utopia da minha parte crer tão veementemente no Amor como solução para as feridas do mundo. Mas, graças a isso, consigo conversar e argumentar com pessoas com pontos de vista completamente diferentes dos meus e entendê-las e me fazer entender por elas, sem brigar. Com respeito troco de lugar com ela. Graças a isso, sou bem recebida em todas as partes, desde o bom dia da zeladora do prédio ao do funcionário de alto escalão. Porque eu sei que estou em todos eles e que, mesmo sendo única, todos eles também estão em mim. Posso sim ser uma iludida, ingênua e passiva, mas, na boa, o caminho do Amor anda funcionando muito bem na minha vida. E o caminho do ódio, será que funciona?




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Foi-se o tempo que havia tempo


Parei um instante para pensar o tempo. Em minhas aulas de literatura, tenho estudado bastante sobre a modernidade e como a noção de tempo se desfez do século XX pra cá. Faz todo o sentido. No século XX tivemos diversas guerras, incluindo as duas Guerras Mundiais, tivemos grandes colapsos financeiros, tivemos regimes totalitários por todo o mundo. Era uma vez alguém nascido no século XX que percebeu que a História acontecia enquanto se vivia, e não nos grandes livros e manuais do passado. Era uma vez a história presente. Foi quando se perguntou pela primeira vez: tempo? 

De um dia para o outro, já não havia mais respiro de um dia para o outro. Era uma vez uma carroça que se transformou num carro, era uma vez um carro que se transformou num trem, era uma vez um trem que se transformou num jato, era uma vez uma sonda no espaço... Espaço? De um dia para o outro eu atravessei o mundo. Romperam-se as distâncias. Deu em todos os jornais. O que eu ouvi do meu avô para contar aos meus netos, de repente, estava impresso — e nem era em revista quinzenal! Não bastava mais o cotidiano do jornal. Não bastava mais os boletins hora-em-hora da TV. De hoje em diante, a cada segundo tudo pode acontecer, é piscar o olho para não ver! O que aconteceu com o tempo?

Outro dia, desliguei o celular e descalcei os sapatos. Deitei na grama, acompanhada de um bom livro. E respirei. E me lembrei! O livro contava histórias sobre contadores de histórias. Respirei antepassados e uma infância sem relógios. Sabe-se lá quanto tempo durava a brincadeira.Sabe-se lá quantas horas eu passava dançando nos galhos de uma árvore, a devorar amoras feito passarinho. Sol batendo de mansinho no meu rosto, preguiça gostosa de não saber que horas são. Acordei da preguiça e decidi voltar. Depois de me reconectar com a terra, reconecto o celular. Ainda não sei quanto tempo passou, menos que o suficiente para terminar o livro. Mas os minutos, supostamente perdidos, me foram cobrados um por um. "Você não responde minhas mensagens?"; "Professor mandou e-mail com as próximas leituras"; "Mais uma reforma tramita no Congresso Nacional"; "Saiu o polêmico episódio daquela série que não vi"; "Aonde você estava?". Aonde eu estava? Aonde estamos todos nós? A cabeça nem sabe mais dar conta do tempo que já não temos. Mais uma vez se perguntou: tempo?


Hoje fui à aula de Estudos Literários e a professora me encantou. "Tempo é transformação", ela disse. O que chamamos de tempo já não pode ser determinado pelos ponteiros do relógio. Como se, hoje, minhas duas semanas não comportam mais nem duas horas do que era o tempo alguns anos atrás? Segundos e minutos são as mesmas unidades, mas, com a moderna correção monetária, já não valem quase nada. Sei que minha avó assistia semente dar flor sem a menor pressa. Hoje, compramos flores de plástico e ainda reclamamos da fila do mercado. Estamos sempre atrasados, mas nunca sabemos para quê. Voltando à aula de Estudos Literários (história da literatura e invisibilidades), me pergunto: como pensar o tempo se já extrapolamos o calendário? Quanto valeu o futuro? Quanto vai valer o passado? Era uma vez o tempo em que aproveitávamos o tempo, bendito passado dourado. Mas, se, em literatura, toda leitura é uma releitura, não há como existir passado, a menos que ele esteja presente. Paradoxos literários. Digamos mais, como é possível um passado dourado se, para sê-lo, ele precisa ser constantemente atualizado?

"Tempo é transformação", a professora falou, "Você escolhe a maneira como vai mudar". A verdade é que não existe progresso ou retrocesso, o que existe é a mudança. No fim das contas, o tempo nada mais é do que uma escolha. Já não envelheço de um ano para o outro, apenas me transformo, se para melhor ou pior, depende de como eu escolho mudar. Tempo é escolha e, quando não escolhemos, por ele somos arrastados. Também é uma escolha ficar estagnado e permitir que o mundo mude sem você. Tempo é movimento e, para não se perder no caminho, é bom ter sempre em mente para onde se está indo. E nunca se deixar parar. Até porque, teimar num canto e se deixar empoeirar não vai te impedir de mudar. É você quem escolhe no que vai se transformar.

"Atente ao tempo:
Não começa, não termina
É nunca, é sempre"





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Sobre como aprendi a voar

Salve, hipotético público do meu blog! Como podem ver, as coisas andam meio diferentes por aqui, como não poderia deixar de ser, já que agora eu sou uma Sarah inteiramente nova. Ainda ando cheia de opinião pra dar e receber, porque a gente muda, mas o ascendente continua sendo em Gêmeos, né? Mas andei colocando as asinhas de fora e, embora ressuscitando este tão querido diário virtual, há de se perceber que muita coisa na minha cabeça tem mudado nesses 4 anos desde a última vez que escrevi (graças a Deus), mas é claro que a essência da coisa e da Sarah continua a mesma (graças a Deus!).
Ultimamente tenho um monte de coisas sobre as quais quero escrever, mas, pra começo de conversa, quero contar como cheguei até aqui. Vamos lá, da última vez que estive por esse blog, eu era uma estudante de Comunicação Social, ligeiramente agnóstica e mentalmente perturbada por uma Síndrome do Pânico que já me fazia companhia desde a adolescência. Pois bem, a Sarah de hoje resolveu conquistar o sonho antigo de viver das Letras, carrega a Umbanda no coração e achou em si tamanha segurança em ser-se que já não deixa medo nenhum a dominar.
Como isso aconteceu? Sei lá, mas suspeito que foram anjos. Um dia meu irmão me contou que os anjos nada mais são do que pessoas que alcançaram o fundo do poço e tiveram de encarar seus maiores demônios, mas que, lá do meio de sua própria escuridão, conseguiram enxergar uma réstia de luz, pegar impulso lá do fundo e se jogar no melhor que se pode ser. De certo modo, foi isso que aconteceu comigo, fui descobrindo minhas asinhas de anjo e agora ando aprendendo a voar.
Em 2013, ainda dominada pelo pânico, fui a uma festa na rua com meu primo. Ouvi uma conversa sobre um tiroteio e meu coração começou a acelerar. Pouco depois soube que um homem havia sido baleado ali, naquela mesma rua, há alguns minutos. Senti a crise começar a bater. O ar me faltava, as extremidades começavam a tremer. Procurei meu primo imediatamente, eu precisava sair dali. Ele tinha bebido e dizia bem distraidamente que não poderia dirigir. Foi quando vi dois camburões repletos de policiais armados até as unhas, armas enormes, correndo pelo perímetro das quadras, provavelmente procurando o autor do disparo. Eu precisava sair dali. E se a crise batesse? Se eu perdesse o controle, ia acabar no chão, semi epilética, e não conseguiria sair daquela situação de risco. O medo de perder o controle foi o que me deu segurança para pegar a chave do carro do meu primo e nos levar pra casa, sem pensar duas vezes.
Passei o dia inteiro sem conseguir falar, estava traumatizada. Quem já viveu o pânico sabe que qualquer detalhe pode virar um gatilho. Quando estava em crise, eu não conseguia dormir, porque poderia morrer durante o sono. Às vezes tinha medo de levantar, porque poderia cair e bater a cabeça perigosamente, então acabava passando horas deitada imóvel... Enfim, eram as mais criativas possibilidades de ser ameaçada pelo mundo. Eu tinha medo de viver. No dia seguinte ao incidente, só a ideia de sair de casa já me evocava mil e uma balas perdidas. Fiquei preocupada com o que minha própria mente podia aprontar e mandei mensagem para o meu irmão explicando a situação, porque além de ser estudante de psicologia na época, ele sempre foi um grande mentor pra mim. Ao conversar comigo, meu irmão me questionou "Sarah, qual é seu sonho?". Eu não sabia qual era meu sonho, mas sabia que queria sair de Brasília e viver uma nova experiência em outra cidade, desde pequena eu tinha essa vontade. "Como você vai viver em outra cidade se você tem medo de andar na rua?". Aquilo me calou fundo. No mesmo dia, resolvi caminhar no fim de tarde. Há anos eu não saía àquela hora, porque tinha medo de sair de casa à noite. Respirei fundo e comecei a prestar atenção à minha volta. Não sei se vocês sabem, mas cada pôr do sol em Brasília é um espetáculo à parte, com todo aquele céu, com todas aquelas cores. Naquela paisagem linda, pessoas caminhavam tranquilamente. Tranquilamente! Então eu percebi "Sim, Sarah, qualquer coisa pode te matar, mas isso não é motivo para deixar de viver".
Quando aconteceu o tiro, fiquei traumatizada de certo modo. Mas, ao contrário do estresse pós-traumático, acho que tive o não tão famoso crescimento pós-traumático. Foi algo que me assustou tanto que me fez repensar a minha vida e querer me superar. A partir de então, tive meu processo de anjo e iniciei meu processo de saída do meu fundo de poço.
A partir de então, comecei a sair de casa, me soltar completamente. Conheci novas pessoas, me permiti acontecer. Foi quando conheci Bruninha, outro anjo, que há pouco tempo havia sofrido uma experiência muito similar à minha com o pai que, como minha mãe, havia perdido a luta para o câncer. A Bruna era minha vizinha e passou a me dar caronas para a UnB. Seu pai era escritor e professor de Letras, desde pequena ela estava acostumada a esse universo, foi mais que natural mostrar para ela minhas poesias, dizendo que um dia queria ser escritora. Um dia ela olhou pra mim com aqueles olhos capazes de ler sua alma inteira, e me falou convicta e sorridente "Sarah, você não vai ser escritora um dia, você já é! Você tá no curso errado, devia estar fazendo Letras!". Sim, a Bruna leu meu sonho estampado na minha cara que, até então, eu nunca tinha percebido.
Passei a pegar matérias de Letras junto com a Bruna, assim meu sonho foi se definindo diante de mim. Depois trabalhei no Centro Cultural do Banco do Brasil, onde pude conhecer a arte da mediação, trabalhando com públicos diversos. Era como se cada dia eu desse uma aula diferente. E isso me satisfazia completamente. Mais se define o sonho: sim, quero ser professora de português!
Mais ainda, além de definir um sonho e objetivo de vida, passei a equilibrar várias áreas da minha vida, estava me sentindo muito plena. Passei a fazer capoeira e yoga, trabalhando meu corpo e minha mente. Passei a frequentar semanalmente palestras de parapsicologia. Por fim, conheci meu terreiro de Umbanda e senti um enraizamento ancestral, passei a frequentar o terreiro 3 vezes por semana. Cada vez mais eu senti minhas plumas tornarem-se penas e, quando me senti pronta, resolvi tentar voar sozinha. Resolvi sair de Brasília e fazer um curso de Letras, logo passei no vestibular pra UFSC e me mudei para Florianópolis. E, há 1 ano e meio, tenho estudado o que realmente amo, aprendendo a me virar sozinha e, dia a dia, crescendo um pouquinho mais. É claro que ainda tenho mundos e universos para crescer, sei disso. Eu só dei o primeiro passo rumo ao meu sonho, mas consigo vê-lo e me recuso a perdê-lo de vista. Acho que a grande mudança que se operou em mim de lá pra cá, é que agora tenho consciência de quem nasci pra ser e não abro mão de jeito nenhum de tudo que vi em mim, de tudo que tive de superar para chegar até aqui e de tudo que aprendi nesse processo. Agora estou de volta, cheia de novos pontos de vista, e prontinha para dividir com vocês o que tenho visto nesses vôos, ainda desajeitados!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ninguém salvou Salve Jorge

Falar qualquer coisas sobre Salve Jorge a essa altura do campeonato é chutar cachorro morto. É possível que essa tenha sido a novela mais gongada da atualidade, mas, piadas a parte (e foram muitas), difícil mesmo foi desconsiderar minha constante indignação com a trama e me forçar a ver pelo menos um capítulo por semana. Vocês devem se lembrar do meu post sobre Missrepresentation, assumindo, é claro, que eu tenho leitores assíduos apesar da minha clara negligência com esse blog. Enfim, no post em questão eu falava sobre a falta de uma representação decente das mulheres na mídia, o que se deve em parte à falta de mulheres produtoras de conteúdo, temos poucas mulheres roteiristas de novela, por exemplo, e, de todas, creio que a mais famosa seja de fato a Glória Perez.

Olha, eu não gosto da Glória Perez. Pronto, falei! Tá certo, eu não conheço ela como pessoa e nem estou descartando a possibilidade dela ser super querida e gente boa e tudo o mais, mas vamos falar do trabalho dela, que é o que me interessa. Eu tenho uma preguiça enorme das novelas da Glória, primeiro porque sempre é aquela coisa de cultura estrangeira exótica, porém cheia de valores rígidos, figuras estereotipadas, além de um machismo tão last week que cansa só de pensar. A impressão que eu tenho é que toda novela dela é inspirada naqueles romances de papel de jornal, sabe? Tipo Sabrina, Júlia, sabe? Sem esquecer, é claro, do tema polêmico da vez.

Salve Jorge foi uma novela tão fail que eu fiquei sem nem saber que tipo de aspecto absurdo eu iria criticar. Eu não  soube se apresentava estereótipo por estereótipo das personagens femininas, como fiz em Fina Estampa. Não soube se apresentava a salada de frutas de personagens e polêmicas que a Glória tentou enfiar de uma vez na novela. Não soube se concentrava a crítica no casal principal da novela... Não sei, gente! To confusa! Mas acho que, de tudo o que me deixou indignada, vou dedicar esse post ao personagem inexplicavelmente amado por todas as mulheres da novela e tentar explicar por que, pelo amor de Deus, "o cara" NÃO é o Theo.

É claro que a minha impressão da novela não vai ser 100% acurada , até porque eu só tive estômago pra acompanha-la mais ou menos quando a trama já tinha passado da metade. Eu não vi a Morena ser traficada, não vi a história da quadrilha chefiada pela Lívia nem nada do tipo, só comecei a acompanhar depois que a Dona Helô McGiver escapa de um carro em chamas, então me desculpem se eu não abraçar os absurdos em sua plenitude.

Minha primeira e grande rixa é com a relação entre o Theo e a Lívia. Ok, eu entendo, a mulher trafica seres humanos, ela é má, ela deve pagar pelo que fez. Tá certo, sou a favor de punição para criminosos, mas eu pensaria em algo tipo cadeia. Já o Theo pensou numa punição mais radical: estupro. Na real, gente, a novela fala sobre tráfico de pessoas, com foco (se é que essa novela teve foco algum) na exploração sexual de mulheres. Em todos os capítulos que eu vi daquelas moças traficadas, lavando o chão ou dançando alegremente na boate (embora reze a lenda de que elas também foram prostituídas), nenhuma cena me chocou mais do que as cenas de sexo entre o Theo e a Lívia.

O mocinho simplesmente leva a vilã pra cama, acusa ela de ter matado a personagem da Carolina Dieckmann e, quando a Lívia brocha após tal acusação e diz "Sai daqui, vai embora, eu não quero mais", Theo dá uma chave de braço na mulher e transa com ela mesmo assim, entre pequenos estrangulamentos e mais gritos dela de "Sai daqui, eu não quero". Eu fiquei enojada com essa sequência, pra dizer o mínimo! Eu entendo a Glória Perez ter quisto pegar leve com a questão da exploração sexual das moças traficadas e optado por fazer apenas menção à prostituição e mostrar os programas só enquanto tá todo mundo vestido, negociando na rua. Ok, ela não quis chocar o povo. Mas mostrar a vilã sendo estuprada pelo "cara" tudo bem? Porque isso foi estupro, gente, desculpa, mas não tem outra palavra. Se uma mulher diz não em qualquer etapa do sexo, se ela pede pra parar e nega o consentimento em qualquer momento e mesmo assim o cara continua , à força, desculpa, colega, mas é estupro! E isso é uma questão muito séria! Isso acontece com mulheres no mundo inteiro todos os dias, gerando uma série de traumas e barreiras emocionais. Mas não no caso da Lívia Marine, não, a vilã fez foi se apaixonar por Theo como nunca se apaixonou por ninguém, porque "nunca um homem a dominou desse jeito". Sentiu o tamanho da irresponsabilidade, Glória?


Além da Lívia, Morena e Érica também passaram a novela inteira descontroladamente apaixonadas por esse homem! Um cara machista, violento, dominador, que mora com a mãe e trai todas elas em regime de rodízio! Se a gente for pensar na música do Roberto Carlos, que se refere a um cara obsessivo e controlador, do tipo que tende a cometer crimes passionais, então, sim, esse cara é o Theo. Quer dizer, só o fato de estuprar alguém já fala muito do caráter do personagem, mas ainda tem os agravantes. Theo estupra Lívia (e, desculpa, eu vou continuar chamando de estupro pra ver se alguém mais se toca que realmente foi isso que aconteceu, que é sério e que não pode passar batido!) depois de saber de todas as merdas que a malvada fez com o suposto amor de sua vida, Morena, para SE VINGAR! Ele estupra a moça má como vingança da honra da amada!!! E mais, ele faz isso enquanto está CASADO com Érica! Dá pra crer numa coisa dessas?

Daí eu penso, o final dessa novela foi revolucionário em uma coisa: a mocinha não teve final feliz. A Lívia foi pra cadeia, mas fica claro que ela vai acabar seduzindo um otário e saindo de lá sem cumprir a pena devida por todo o mal que fez. A Érica foi atropelada e perdeu o bebê que esperava, já que aborto não pode, mas tudo bem, porque ela acabou se apaixonando pelo cara que matou o bebê dela, que já é o marido dela na vida real então atropelar foi o de menos. Só que a coitada da Morena, gente, a coitada da Morena ficou com o Theo, que eu não dou nem um ano pra começar a agredir e trair o amor da vida dele a torto e à direita!

Olha, Glória, não é por nada não, mas se esse é o seu modelo de homem ideal, por favor, como um favor especial que você presta à humanidade: não compartilhe esse modelo com o resto do mundo, a gente não precisa disso!




sexta-feira, 8 de março de 2013

Seria um feliz dia da mulher se...


Quando eu era pequenininha, achava bacana essa história da mulher ter um dia só pra ela, um dia INTERNACIONAL, caramba, que demais! Daí a gente ganhava flores na escola e todos os meninos vinham nos dar parabéns. O encanto meio que se quebrou quando eu comecei a estudar o feminismo, uma coisa a gente tem de admitir, o feminismo quebra muitos daqueles encantos tão bem construídos pela nossa sacra ignorância. Foi há alguns anos que eu comecei a encarar o dia 8 de março como uma espécie de compensação completamente descompensada. Peraí, eu luto o ano inteiro pra não me encaixar em determinados padrões de beleza e de comportamento, pra não ser diferenciada dos demais seres humanos da face da Terra, e me vem uma galera separar um dia pra ressaltar justamente isso?

Não sou louca, não acho errado tirar pelo menos um dia para se tomar consciência das questões que as mulheres enfrentam unicamente por serem mulheres, pelo contrário. Mas não é disso que o 8 de março de trata, não é verdade? Chove mensagens de parabéns pra você que é mãe, pra você que é romântica, sensual, carinhosa, família, bonita, porque é isso que é ser mulher. Concordo, beleza, algumas de nós correspondem a algumas dessas características, que são mais expectativas do que elogios em si, mas não são todas e, mesmo as que são, não são apenas isso. É meio escroto pegar uma dia que homenageia as lutas pelos direitos das mulheres e transformar isso em mais uma tentativa de afirmação do que corresponde e do que não corresponde ao "ser mulher".




Seria muito bacana se, pelo menos hoje, nenhuma mulher sofresse preconceito por ser mulher. Seria bacana se, pra variar, ninguém usasse no trânsito a frase "tinha de ser mulher!". Seria fantástico se, pelo menos hoje, ninguém precisasse masculinizar uma mulher pra justificar sua competência profissional. Seria incrível se, hoje, ninguém julgasse o caráter de uma mulher pelas roupas que ela usa ou não usa. Seria maravilhoso se nenhuma mulher fosse estuprada ou assassinada hoje. Seria demais se nenhuma lésbica no mundo ouvisse hoje a frase "é lésbica porque não achou o homem certo". Se nenhuma de nós se sentisse coagida ou ameaçada ao andar na rua, se nenhuma de nós precisasse fazer o dobro do que os homens fazem pra justificar nosso salário, se nenhuma de nós que ganhasse uma promoção fosse acusada de ter dormido com o chefe, aliás, se nenhuma de nós sofresse qualquer tipo de abuso ou assédio. Seria magnífico se, só hoje, nenhuma menina fosse exposta precocemente a padrões irreais de beleza, aliás, se, pelo menos hoje, não existisse padrão de beleza algum.
Isso sim seria um dia pra comemorar. Pelo menos um dia no ano inteiro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Não sou pra casar

Fico me perguntando o que minha santa avó acharia dessa constatação, justo ela que passou tanto tempo tentando me ensinar como deve se comportar uma moça pra casar. Não queria ignorar aquela educação, que ela dirigiu especialmente pra mim, sua princesinha. Mas, que jeito, desobedeci.
Se a vovó soubesse que odeio lavar louça, será que ela ia pirar? E se ela soubesse que eu não sei me comportar? Sento de pernas abertas e falo palavrão, quase um vício de linguagem. E não mantive a castidade antes do casamento (que casamento?). E o pior, vó - não me arrependo!
Nem sempre obedeço e adoro dizer o que penso. Além disso, não sei dissimular. Uma moça direita deve manter o mistério, mas tudo isso me dá tanto tédio. Prefiro poupar meu tempo e ir direto ao ponto. Não sei jogar, coisa que, ouvi falar, complica qualquer matrimônio.
Mas se casamento for só fazer as vontades do meu marido,  eu passo. Desculpa, mas não tenho interesse em ser patrimônio de ninguém. Se alguém me quiser bem, tem que ser assim. Se não, tudo bem também.
Prometo manter o corpinho enquanto eu estiver afim, mas não vou fazer greve de fome só pra segurar homem. Prometo amar mais do que tudo e prometo me fazer feliz. Se, pra isso, uns e outros me chamarem de meretriz, prometo não me importar.
Não garanto que isso tudo me impeça de subir ao altar. Vai que um desavisado ache sexy esse meu gosto pela liberdade? E se ninguém achar, não me dou por perdida. Eu prefiro a vida sozinha, só minha, do que esperar até a morte pra me separar de alguém que não me diz nada.
Desculpe se fugi aos planos e cresci desgovernada.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sobre essa falta de representação

Ontem eu finalmente consegui assistir Miss Representation. Trata-se de um documentário que denuncia as formas grotescas como as mulheres são tratadas pela mídia. O título traz muitos significados: misrepresentation significa "deturpação"; miss representaion (com dois S's) significa "falta de representação", mas também faz alusão ao termo "miss", que quer dizer "dama" ou "senhorita", o que resume muito bem o conteúdo do documentário. Eu já tinha lido alguns dos dados no blog da Lola, mas só me dei conta do absurdo da coisa ao assistir o filme na íntegra. Fiquei com medo e me senti presa, parece que ser mulher é não ter pra onde correr, é andar na corda bamba, tentando equilibrar cada vez mais papéis conflitantes que são jogados em cima da gente.

 Lembro da professora Tânia Montoro nos dizendo como foi difícil abrir a disciplina (optativa) "Comunicação e Gênero", porque a reitoria não considerava o assunto importante na formação dos alunos. Ainda bem que a professora bateu o pé, porque eu não acho que esse blog existira se não fosse por ela. Quando eu comecei a escrever aqui, não achei que ia dar um viés feminista pros textos, minha intenção era só analisar discursos e representações na mídia. Mas não teve como deixar o feminismo de lado, não quando essa falsa de representação é tão flagrante.

Os dados de Miss Representation referem-se à mídia estadunidense, mas não é difícil traçar um paralelo com a mídia brasileira. Até porque, vamos combinar, dá pra contar nos dedos os programas que nós não copiamos dos EUA, né? Aqui nós temos problemas seríssimos, é só lembrar daqueles casos patológicos de publicidades como as da Hope e da Marisa, que, mesmo tendo um público consumidor quase que completamente composto por mulheres, ainda apresentam um conteúdo misógino, pra dizer o mínimo.

Na política, quando finalmente elegemos a primeira presidente mulher da nossa história, insistimos em masculinizar seu comportamento, chamando-a de durona, autoritária, rigorosa... Coisa que não aconteceria com um homem ocupando o mesmo cargo de poder, como a própria presidenta argumentou nessa entrevista ao Fantástico. Aliás, quando o time de ministras da Dilma foi escalado (que, aliás, não chega a 30% dos ministérios), a Marie Claire resolveu fazer um perfil com cada uma delas, com perguntas sobre vaidade e família, o que eu nunca vi acontecer com nenhum ministro homem.

Quanto às novelas, quem lê esse blog já deve ter visto alguma coisa a respeito, as representações das mulheres ainda caem nos mesmo velhos estereótipos, salvo raras exceções. Isso porque, já que o texto já tá ficando grande demais, eu nem vou falar do cinema e do jornalismo!

É por isso que a gente tem de continuar fazendo o que a gente sabe fazer: questionar, propor mudanças, apontar os problemas e exigir soluções. Esses dias eu vi um monte de gente divulgando um novo blog, o Escrevendo uma Feminista, e eu pensei "Caramba, mais coisa pra ler?" (porque eu já leio bem uns 10 blogs feministas todo dia). Depois de ver o filme, cheguei à conclusão de que tem que ser assim mesmo. A gente tem que fazer o que pode, de todas as maneiras possíveis. Quanta gente parou pra prestar atenção no sexismo depois de ler a Lola ou a Feminista Cansada? Parece pouco diante da força dessa cultura machista, diante desse povo todo que acha o sexismo uma coisa normal, mas, mesmo aos pouquinhos, a gente tá conseguindo alguma mudança. O negócio é continuar!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Love my nose day

Hoje o relato é pessoal. Pra quem não sabe, hoje é o Love Your Body Day, ou seja, é o dia de amarmos nossos corpos do jeitinho que são, tentando escapar um pouco desses padrões absurdos que nos enfiam goela abaixo todos os dias. Hoje é dia de dizer "Não, eu não quero fazer plástica!" ou "Eu amo cada um desses pneuzinhos" ou, ainda, "Não interessa o que você acha, essa saia fica LINDA em mim!". Apesar de já estar de saco cheio de todo mundo vir reclamar comigo por causa dos meus quilos a mais, já não me importo tanto a ponto de não fazer o que eu não quero, quando e se EU, a dona do corpo, estiver interessada em emagrecer, eu resolvo.
Mas não é disso que eu quero falar. Acho que o LYBD fala sobre auto-aceitação, por isso vou falar do meu nariz. Eu sempre gostei muito do meu corpo, ainda gosto, mas só aprendi a respeitar meu nariz há muito pouco tempo. Imaginem que, lá pelos 8 anos, eu já pedia pra minha mãe pra fazer uma plástica, porque o meu nariz me deixava feia. Com 8 anos de idade eu já achava que sabia o que era ser feia!
Foi assim por muito tempo, eu diria que até cerca de 2 anos atrás, quando eu descobri que boa parte do meu problema era, basicamente, racismo. É estranho falar isso de mim mesma, mas não tem outra palavra. Meu pai é negro, minha mãe era branca e sempre me disseram que eu nasci extremamente parecida com os dois, embora eles fossem bem diferentes fisicamente. Da minha mãe, eu herdei o olhar e os cachos soltos. Do meu pai, eu herdei o formato do rosto

e o nariz.
Ouvi piadinhas a vida inteira, porque meu nariz é largo. Eu detestava meu nariz, porque as pessoas diziam que era feio, viviam me chamando de nariz-de-coxinha, nariz de batata, até de aspirador de pó, por causa do tamanho das minhas narinas. Agora, não é no mínimo suspeito eu ter sido zoada a vida inteira por um traço tipicamente negro?
Acho que o LYBD também serve para mostrar que a gente acha muita coisa bonita porque a sociedade diz que é bonito. Mas é difícil esperar espaço para o meu nariz grosso em um lugar povoado por um racismo velado. Eu penso em quanto tempo eu levei para reparar o quão estranho é Taís Araújo, Camila Pitanga, Sheron Menezes, Rihanna, Beyoncé, todas lindas, terem narizes finos, quando a grande maioria dos negros não os têm. Não é coincidência! É pelo mesmo motivo que Laren Galloway é considerado o bebê mais lindo do mundo, é porque elas são negras com traços de brancos. Não to dizendo que, por causa disso, as moças deveriam ser rechaçadas ou que não deveríamos achá-las bonitas ou, menos ainda, que elas são menos negras por conta de seus traços. Não são elas que devemos questionar, mas o padrão de beleza que nos ensinou que devemos ser diferentes do que somos para sermos considerados bonitos.
Sinto-me estúpida por ter demorado tanto tempo para perceber que o meu nariz não é um problema. Parecia ser muita vitimização achar que o problema são os outros, que tentam me ensinar o que é feio. O problema é esse discurso desculpista que diz "Não é racismo, é a minha opinião pessoal. Eu, particularmente, prefiro olhos azuis e traços europeus", só que essa opinião não tem nada de particular! Todo mundo usa essa desculpa. E é isso mesmo o que é, uma desculpa e eu não vou mais aceitá-la! Agora eu sou dona do meu próprio nariz que, aliás, fica muito bem aonde está.

sábado, 29 de setembro de 2012

Guerra à Guerra!

Tanta coisa acontecendo no mundo, tanta coisa acontecendo na minha cabeça e eu aqui, deixando esse blog se encher de teias de aranha. De novo e sempre: shame on me!

Pra variar só mais um pouquinho, hoje vou falar de novelas. Aliás, mais especificamente, vou falar por que eu não to nem um pouco inclinada a ver a próxima novela das 19h. Na boa, Guerra dos Sexos é um assuntinho tão last summer, não acham? E me incomoda um bocado! Só de ver a primeira chamada da novela eu já ficava enjoada e com instintos de jogar minha velha televisão janela abaixo. A coisa consistia em um monte de homens e mulheres vindos de lados opostos, eles gritavam "Elas acham que aguentam o rojão, só se for pra piloto de fogão" e elas gritavam "O homem pensa que o mundo é seu, mas só serve pra trocar pneu" e no final todo mundo se pegava. Totalmente sem graça, degradante, além de só servir pra fomentar as velhas picuinhas de "homem é melhor que mulher" e vice e versa.

Como a novela estréia na segunda-feira, já começaram as novas chamadas apresentando os personagens, same old crap: de um lado homens super estereótipos do machismo, dizendo que mulher devia ficar em casa lavando roupa e, do outro lado, mulheres que querem ser independentes, mas que sempre se rendem a um grande amor. Espero, numa boa, que ninguém engula isso!
O preocupante de aparecer uma novela como essa é que, de certa forma, ela reforça a noção errônea de que o feminismo é o oposto de machismo e, pior, que ser feminista é odiar homens. Duvido que eles vão ter a coragem de usar mesmo a palavra "feminismo", mas a globo não precisa ser direta pra formar discursos assim. Só quero ver, num futuro próximo, as pessoas tomando a novela como embasamento. Não duvido nada!

Então, pra você que não sabia, já vou esclarecendo que o feminismo luta pela igualdade entre gêneros. Ou seja, não queremos extinguir os homens e nem achamos que as mulheres são melhores que os homens. Isso também quer dizer que não aceitamos ser inferiorizadas. Se lutamos tanto assim, é pra garantir para nós, mulheres, direitos que os homens sempre tiveram, o voto, como muitos gostam de lembrar, é um direito que conquistamos, mas muita gente deixa de perceber direitos ainda mais básicos que as mulheres não têm, como o direito ao próprio corpo - sinta o absurdo da coisa! Agora, voltando à igualdade de gênero, também não queremos ser superiores aos homens, claro que não, o feminismo também luta para que homens tenham direito de se expressar do jeito que quiserem, gostar do que quiserem, sem serem rejeitados por não se enquadrarem nos papéis mofados, impostos pelo patriarcado. E isso é uma coisa que a novela não vai te dizer!


É claro que eu não posso falar por todas as feministas e nem me enquadrar em todos os feminismos. O feminismo é um movimento plural, tem diferentes vertentes e desdobramentos. Só posso assegurar que ser feminista não tem nada a ver com castrar e/ou escravizar os homens, isso a gente deixa pra teledramaturgia!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Entre princesas e cachorras

Hoje eu quero falar sobre um assunto complicado, mas acho importante a gente discutir em vez de simplesmente rir e optar por não entender. Estou introduzindo o assunto dessa maneira, porque eu vou falar a respeito do "Culto das princesas", que é ministrado pela pastora Sarah Sheeva. Para quem não sabe do que eu to falando, trata-se de um culto evangélico que prega a castidade e a pureza sexual entre mulheres, agora também tem uma versão do culto para os homens, o "Culto dos príncipes", que prega a mesma coisa.
No que me diz respeito, até aí tudo bem, sabe? É complicado falar sobre isso, justamente porque lida com convicções religiosas e opiniões pessoais, enquanto tem gente que acredita piamente em tais princípios, tem mais um montão de gente fazendo piada, rindo desse tipo de coisa. Isso eu acho horrível. Já mencionei aqui que eu tenho minhas convicções religiosas, estudo a bíblia e sou toda avessa a preconceito religioso, acho que o modo como uma pessoa escolhe viver sua vida só diz respeito a ela, hoje em dia chove piadinha para quem decide "se guardar até o casamento", acho tenso (nota mental: fazer um post sobre virgindade).
Bom, dito isso, agora vamos tratar do que realmente me incomodou. Não vejo problema em querer ser pura e casta, o problema é quando você se acha melhor do que os outros por conta disso. O culto diferencia muito bem princesas de cachorras, usa termos pejorativos para se referir a mulheres que gostam de sexo ou que simplesmente se vistam de maneira mais "chamativa", por assim dizer. Como assim, Brasil? Numa reportagem que andou circulando no facebook, fica bem clara a noção de que se um homem é tentado por uma mulher, a culpa é dela e até orienta os homens a negarem ajuda a mulheres bonitas, para evitar o pecado. Nããããão, gente! Socorro!!! E aí vem a velha e péssima noção de que é a culpa é da mulher que usa muita maquiagem, que usa roupa curta, que anda com as pessoas erradas, que decide ser independente... Dá pra entender o problema?
É isso que me dói lá no fundo do meu S2, por que comparar? Por que denegrir quem você acha diferente? Se é pra seguir o exemplo de Jesus, vamos, antes de tudo, tentar não julgar os outros e deixar que cada um use de seu livre arbítrio como bem entender? Respeito é bom dentro da igreja e fora dela. Da mesma forma que eu acho horrível preconceito religioso, também acho horrível gente que se acha superior por acreditar em Deus. E é por tudo isso que esse é um assunto polêmico e cá estou eu, de novo, com medo de ser apedrejada virtualmente.

Mas, em tempo, não culpo a igreja evangélica e, menos ainda, a Sarah Sheeva. Aliás, ela me pareceu uma pessoa bem sensata na entrevista que deu pra Marília Gabriela. O problema é que o tempo todo nos ensinam o que é mulher pra casar e o que não é, o que é a cachorra e o que é a princesa. Vou te falar, nem princesa nem cachorra encontra príncipe encantado, porque nada disso existe! Ninguém ensina a gente a buscar amores reais, ninguém ensina que as pessoas são como são, com defeitos e qualidades tão palpáveis quanto as nossas, mas enfim, isso já é assunto para um outro post...

terça-feira, 3 de julho de 2012

Uma Pérsia que poucos conhecem

Já faz algum tempo que eu cobro de mim mesma um post sobre Persépolis, uma graphic novel de Marjane Satrapi. Antes de prosseguir com o post, vou falar um pouquinho sobre quadrinhos pra situar o povo, já que eu sei que rola um certo preconceito em relação aos quadrinhos, eu mesma achava que quadrinhos se dividiam em apenas 3 categorias: o mangá, o de herói e o infantil!
Tudo isso mudou quando comecei a namorar o meu lindo e maravilhoso Carlos Lins ♥, que me mostrou o quadrinho como meio de comunicação (o que o classifica mais como um comunicólogo vanguardista do que como um nerd inveterado, será?). Inclusive, existe uma matéria na faculdade de Comunicação Social chamada Oficina de Histórias em Quadrinhos, ministrada pela professora Selma Regina, autora do livro “Mulher ao quadrado: as representações femininas nos quadrinhos norte-americanos”.
Enfim, o que eu queria dizer mesmo é que o quadrinho é um meio muito rico, que está entre nós há um bom tempo e até hoje tem gente que não sabe reconhecer o valor desse material, tipo eu há algum tempo.

Acontece que esse meu namorado vivia me falando de como eu ia adorar Persépolis e que eu tinha de ler e tal e tudo. Primeiro ele me convenceu a ver a animação, que eu adorei! Daí ele ficou me cutucando intelectualmente, dizendo que tinha muito mais coisa no quadrinho, que eu tinha de ler! Um belo dia ele estava cercado de quadrinhos, escrevendo a monografia, então eu resolvi pegar o Persépolis dele emprestado. Fiquei tão maravilhada ao ler aquilo que agora quero todos os quadrinhos da Marjane Satrapi (a saber "Frango com Ameixas" e "Bordados")!


A coisa mais interessante a respeito desse quadrinho é que ele é a história de vida da Marjane, uma menina iraniana que cresceu em meio a guerras e a um regime totalitário. Nascida numa família com ideias esquerdistas, ela mostra todo o estranhamento de uma garota que, de uma hora para outra, teve de começar a usar o véu para sair de casa, quando o que queria de verdade era usar camisetas de suas bandas de rock ocidentais favoritas. Crescer com ideais modernos naqueles tempos de guerra não era saudável para a integridade de Marjane, então, aos 14 anos, seus pais a mandaram para a Áustria. Nessa etapa do quadrinho, vemos todo o choque cultural entre Satrapi e seus amigos ocidentais.
Mas Persépolis não fala apenas de guerra, ele nos mostra que existe vida inteligente no oriente. É duro dizer com todas as letras, mas, de fato, boa parte dos ocidentais acredita que o povo oriental, principalmente do Oriente Médio, é menos desenvolvido intelectualmente e culturamente. Marjane mostra que, apesar de todos os conflitos, os iranianos não deixaram de viver, de pensar e de se divertir e que houve sim uma resistência. O bom de ler e se deixar envolver por obras de culturas que não conhecemos direito é que elas nos surpreendem e abrem nossos olhos para os nossos preconceitos. Além do mais, sempre é bacana aprender com o outro, não?
Eu falaria muito mais, mas se eu desandar a escrever aqui, vou contar toda a história do livro e esse post vai ficar impossível de ler. A minha dica é: assistam a animação, leiam o quadrinho e se deliciem!




domingo, 17 de junho de 2012

Pobre Dra. Lygia

Well well, eis uma coisa sobre mim: eu adoro televisão! Como estudante de comunicação, acho fascinante o poder que essa mídia tem, principalmente no Brasil, aonde o pessoal tem mais TV em cores do que esgoto, por exemplo. É isso que me leva a pensar sobre o que se está passando para todo esse povo, já que a TV também é uma ferramenta capaz de reforçar antigos estereótipos, mas também propor novas ideias. Gosto especialmente das novelas, quem é que não assiste novela no Brasil? Bom, eu assisto e adoro. Ultimamente ando aficionada por "Cheias de Charme", não perco um capítulo! E como eu curto mesmo analisar representações na TV, lá vou eu falar um pouco sobre a Dra. Lygia Mariz Ortega, personagem vivida por Malu Galli.




Quando se fala em mulher bem-sucedida, todo mundo já pensa ou numa solteirona ou numa mãe ausente, acho super triste essa ideia, já que não é bem assim quando o assunto é com os homens. A equação é meio que homem bem-sucedido = feliz e mulher bem-sucedida = infeliz. E aí está a Dra. Lygia fazendo exatamente esse papel. Lygia é uma excelente advogada, ganha muito bem, obrigada, tem um senso ético elevadíssimo e é competente até dizer chega; é casada com um lindo espanhol e tem dois filhos saudáveis. Até aí tudo bem. O grande problema é que ela precisa se dividir entre a carreira e a casa, como é o caso de grande parte das mulheres nos nossos dias. A advogada tem um dedo podre para escolher empregada e, por outro lado, é impossível para ela dar conta sozinha do trabalho doméstico, seu filho mais velho, Samuel, é praticamente um delinquente juvenil e vive culpando a ausência da mãe por seu mau comportamento. Quando tenta tirar algum tempo extra para cuidar da casa, leva broncas do chefe e se compromete no emprego.

Na última semana, em especial, tive ainda mais pena da pobre personagem. Quando finalmente ia trabalhar menos, ela foi demitida injustamente pelo chefe. No mesmo dia, o filho foi preso por vandalismo e lá foi ela ter de advogar por ele. Chegando em casa, ainda teve de ouvir Samuel discursando sobre como ela é uma péssima mãe por priorizar sua carreira. Para piorar, ela ainda descobre que está com uma apendicite supurada e tem de ser internada. É muito sofrimento pra uma semana só, não? Vamos combinar! Isso porque  ela ainda nem faz ideia de que sua empregada perfeita, Maria da Penha, se demitiu por ter sofrido assédio sexual do patrão, o amante latino, Alejandro.
É muito carma, cara. Será que é esse o custo do sucesso?

Aparentemente, tudo o que Dra. Lygia fez para merecer isso foi ser a provedora da casa. E cadê o Alejandro para ajudar, já que ele apenas faz bicos como fotógrafo? No hay! O cara só faz correr, malhar o corpinho lindo e dar em cima das empregadas do condomínio Casa Grande. O triste é que essa realmente é a imagem que se tem: olha, você quer trabalhar, quer ter uma carreira, então ou você abdica de ter marido e filhos ou se vira para conciliar os dois. E se o homem quiser ser o dono de casa - diferente do Alejandro, que pra mim é um personagem bem folgado - enquanto a mulher trabalha? Pode crer que ele também vai sofrer preconceito, porque isso é coisa de mulher!

Eu realmente torço para que a novela ache uma solução para a doutora, sem que ela tenha de largar o trabalho por isso. É aí que entra o papel da TV de propor novos modelos. Já está mais do que na hora de parar de mostrar as mulheres apenas como donas de casa, e aí é que "Cheias de Charme" dá um passo à frente: todas as mulheres das novela trabalham ou já trabalharam. E é bacana representar famílias que fujam ao modelo nuclear tradicional, com a mãe cuidando dos filhos e pai trabalhando. Por mais que as coisas ainda estejam injustas para Lygia, ainda temos um avanço: é uma mulher, ocupando um cargo de poder e sendo a principal responsável pelo sustento da casa. Já é uma mudança de padrão!


No mais, desculpa aí pelo texto arrastado, galera. Foram algumas semanas sem escrever, estou meio enferrujada :)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Peitos

Eu ia escrever um post sobre a Marcha das Vadias, que aconteceu agora no dia 26, mas certos fatos me levaram a mudar de ideia na última hora. Acontece que rolou um peitaço no final da marcha, lá na rampa do Museu Nacional, e acabei de saber que, por conta disso, uma amiga minha recebeu ligações com teor ofensivo. O assunto já vinha me incomodando há um tempo, dese que coloquei no facebook um ensaio dos meus extintos piercings nos mamilos. Metade da minha família está brava comigo por conta dessas fotos, mas eu não vou retirar, não fiz absolutamente nada de errado. Não sei por que as pessoas insistem em confundir nudez com erotismo ou pornografia. Para mim, são eles que vêem sexo em tudo.

Agora me explica: qual é o grande problema com peitos?

Todo mundo tem peitos, só que uns tem a permissão de mostrar e outros não. Até galinhas tem peitos, e eu não conheço ninguém que tenha uma ereção ao ver dois pedaços de peito de frango assado. Não entendo tamanha condenação, sério! A primeira coisa que vemos na vida são peitos. Quando a gente é criança, meninos e meninas correm pela praia sem camisa e sem problemas. Depois nosso peito começa a crescer, dói pra caramba, e a gente ainda tem de apertar eles em sutiãs, sem poder reclamar alto, pra nenhum homem ouvir.


Então o peito da mulher vira playground para os caras, e a gente é obrigada a cobrir a fonte do desejo. Sexo não é para moças de bem. Quando engravidamos, eles incham, enchem de leite e doem mais um bocado. Alimentamos as bocas dos mesmos babacas que dizem que é feio amamentar em público. Sofremos com o câncer de mama, envelhecemos e aturamos piadas. As que podem, dão logo um jeito de colocar silicone, gastar uma nota, passar por cirurgia e torcer para a prótese não arrebentar. Por mais difícil que seja, ainda é mais confortável seguir os padrões de beleza.

Não estou dizendo que quero ver todo mundo andando pelado por aí. A sociedade tem regras, we got it. Nós controlamos nosso calor, nosso desconforto, e continuamos cobrindo nossos peitos. Agora, vocês também controlem esse tesão reprimido de vocês e parem de confundir manifestação política com pornografia.

Cara, isso não tem NADA a ver com os pênis de vocês!

sábado, 12 de maio de 2012

Eu e o dia das mães

Minha mãe e seu exemplo de feminilidade
Finalmente vou poder colocar para fora um pouco da minha revolta com o dia das mães. Eu sei que datas comemorativas sempre geram seus contras, quaisquer que sejam, mas eu sinto que nenhuma delas tem tanto apelo emocional quanto o dia das mães.
Não tem como eu falar disso sem levar em conta minha experiência pessoal, afinal, tenho implicância com a data desde que perdi minha mãe, quando eu tinha 13 anos. Mas sei também que estou longe de ser a única pessoa no mundo a passar por isso. Todo ano, assim que a publicidade de dia das mães começa a passar na TV, meu corpo já vai apresentando os sintomas: fico irritada, mais suscetível ao pânico, com dificuldade de concentração, deprimida e com a imunidade baixa. Agora, pelo menos, eu conheço muito bem a razão do meu problema, até porque, já tinha alguma noção do mundo quando perdi minha mãe, já conversei isso um bocado na terapia e já estou no meu quarto ano do curso de comunicação, então pode-se dizer que eu entendo uma ou outra coisa de mídia. Nem assim eu consigo evitar esse mal estar. Agora, você imagina quantas pessoas devem estar em situação parecida, talvez não com os mesmos sintomas, mas, certamente, com a mesma sensação de inadequação.

Não estou falando aqui só dos "órfãos de mãe". Há uma maioria gigantesca que não é representada nessas publicidades. Vamos combinar, quantas mães se parecem com modelos de 25 anos? E quantas delas gostam e/ou tem tempo de cozinhar ou de arrumar a casa? Cadê as mães divorciadas? Cadê as mães chefes de família? Cadê as mães lésbicas? Cadê as mães negras? Na TV é que elas não estão. O que se vê é um modelo que não muda nunca: a mãe amorosa, bonita e dona de casa, sem opções. Ela deve ser assim. Empurram padrões de beleza e de comportamento e quem não se encaixa que arque com as consequências.


Me preocupa, principalmente, essa história do amor materno. É uma coisa imposta, não é uma coisa natural. A mãe DEVE ser a coisa mais importante na vida do filho, por isso fazemos propagandas apelativas, pra te lembrar disso. Você que não tem mãe ou cuja mãe é ausente, chega pra lá ou muda de canal, porque você não é público consumidor. Por outro lado, essa mesma mensagem é passada para as mães também, a partir do momento que você é mãe, você é obrigada a amar incondicionalmente sua cria, não porque você quer, mas porque a sociedade manda. O mesmo não é imposto ao pai, qual é a comoção que se vê quando um pai abandona o filho? Homem é assim mesmo, não é?
Eu não to falando tudo isso porque quero abolir o dia das mães, longe de mim. Eu falo porque acho que tá na hora de se refletir sobre mensagens como essas, sobre o lugar que é colocado a mãe e sobre as consequências disso. Porque, pelo que eu vejo agora, ser mãe ainda é um reducionismo do que é ser mulher ou, mesmo, do que é ser humano.