quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O avesso do espelho

Faz semanas que quero escrever no blog sobre os espelhos. Queria falar justamente sobre a necessidade (e dificuldade) de olhar no mais importante deles: o espelho da nossa alma. Mas quem disse que eu tive coragem suficiente para encarar meu próprio espelho pra poder falar disso sem hipocrisia? É, minha gente, às vezes (ou quase sempre) a teoria é muito mais fácil que a prática. Mas, nesse caso, escrever a respeito exige um reconhecimento, e esse reconhecimento é a própria materialização do tal espelho da alma. Tá confuso, né? Vamos ver se ao longo do texto eu consigo simplificar a coisa para nós todos!
Vamos começar pelo conceito do espelho. O que é que esse objeto encantado, tem de mais? O que tanto nos distrai, o que tanto nos seduz, o que tanto nos revela? Nas aulas de física, aprendi sobre o  caráter ilusório da imagem refletida. Nas aulas de história, aprendi que o espelho foi objeto-símbolo na sedução dos índios em troca da terra. O espelho de Harry Potter revelava os desejos inalcançáveis. O reflexo, em suas mil significações, a um só tempo matou Narciso e salvou Oxum. "Mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente", disse o Renato Russo. Espelho, espelho meu, obsessão de uma rainha. Ambiguidade de cristal: artefato mágico que esconde o que revela e revela o que esconde.
O problema do espelho é a imagem, quase sempre distorcida. Desde o reflexo do rio, vi uma imagem e dei a ela o meu nome. Quando envelheci, deixei que a imagem da velha fosse mais do que eu mesma. Quando me envaideci, deixei que a imagem de uma deusa se sobreposse a quem eu sou. Quando adoeci, liguei mil e uma câmeras, espelhos modernos na Era das Imagens. Eu não me via, não me enxergava. A imagem de mim, as mil imagens de mim, me distraíram de quem sou. Me colocaram na vitrine. Imagem distorcida. Escrava do espelho. Nesses novos velhos tempos, nunca sou minha imagem e minha imagem sempre parece ser mais que eu. Se feia: horrenda. Se linda: bem-quista. Se humana: mortal. Apenas mortal. Num mundo de instantâneos deuses, sou apenas mortal.
Essa é a realidade do espelho. Para se olhar no espelho, é preciso, primeiro, quebrar o espelho. Nada do que dizem que é minha imagem revela a realidade de quem sou. O sumidouro do espelho. Para reconhecer a eternidade de minha alma, preciso me ver humana. Preciso romper com as ilusões de tudo que sei que não sou. Não sou a imagem, sou o que nela se move. Eu sou a realidade de cada segundo. Eu sou a verdade. Qual é a minha verdade? Derradeiro espelho, espelho meu. Quem é que tem coragem de olhar no fundo de si? Eu, a deusa. Eu, a bruxa. Eu, humana. Quando vamos nos reconhecer? Imagem rompida: Sarah, te apresento a Sarah. Eis o dia que aprendo a me olhar sem me julgar. — Prazer, Sarah! — E aceito minhas dores. E aceito meu riso. E aceito todas as minhas potencialidades e, para tanto, todas as minhas responsabilidades. Aceito meus medos e minha coragem. Aceito minha inveja e minha bondade. Aceito meu desprezo e minha compaixão. Meu espelho é água corrente. É caleidoscópio. Eu sou todas e nenhuma imagem de quem acho que sou.
Por que é tão difícil? Por que demorei tantas semanas para conseguir escrever sobre isso? Porque, meus queridos, aprendi a ter vergonha de ser invisível. Ter vergonha de não ter imagem para refletir. Eis a verdadeira nudez. Como vou me despir assim? Mais fácil tirar a roupa que livrar-me dos disfarces. Espelho na frente de espelho, na frete de espelho, na frente de espelho, para nunca olhar no derradeiro: olhos com os olhos de minha alma. Temos medo de sermos humanos. Medo de nos reconhecer. Medo até de nos pegarmos no colo. Por isso nos disfarçamos. Por isso nos distraímos com as mil possibilidades do que poderíamos ser. Mas, eis-me aqui escrevendo. Eis-me aqui a finalmente buscar o último e primeiro dos meus reflexos. Jornada danada de se desbravar. Resolvi buscar em mim uma pessoa querida, que depende do meu colo. Apenas meu colo pode suprir minha própria dor. O espelho da minha alma, no fim das contas, é apenas (nunca pequeno, mas sempre simples) o tal do Amor.
O verdadeiro espelho: ora yê yê ô!


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Sobre como o Amor pode salvar o mundo

É muito comum encontrar algum texto meu por aí falando sobre Amor. Já perdi a conta de quantas vezes me chamaram de romântica ou mesmo de ingênua por causa da minha visão sobre o Amor. De fato, o Amor pra mim é uma bandeira, acho que é o propósito e a solução de tudo. Para mim, Amor é sinal e meio de (r)evolução. Para mim, o Amor é o que pode curar o mundo. E lá vem a ideia de que sou passiva demais ou utópica demais por acreditar que o Amor resolverá todos os nossos problemas. Mas, antes de qualquer coisa, acho bom contextualizar de que tipo de amor estamos falando aqui.
O que eu entendo por Amor é muito mais do que a concepção romântica e institucionalizada do que é amor. Note que eu escrevo de propósito Amor com A maiúsculo, não por acaso, porque pra mim Amor é Deus. Vamos subverter aquela máxima cristã: Deus é Amor? E se Deus não for somente uma entidade superior humanamente entendida como um ser barbudo em um trono suntuoso? E se Deus for essa energia transformadora que, de uma hora para outra, me faz querer abraçar alguém ou, ao menos, calçar seus sapatos? E se Deus for essa energia que se multiplica quanto mais próximos estamos da essência de algo, de alguém ou de nós mesmos? Bom, é isso que eu entendo como Amor. E, pessoalmente, para mim Deus é sim uma entidade suprema, mas o Amor também é, porque são a mesma coisa. Então, para definir, o tipo de Amor que estamos falando aqui é basicamente a energia que me faz me reconhecer no outro (e em tudo).
Pois bem, dito isso, é óbvio que não estou sendo romântica. O amor romântico nasce de uma ideia de possessividade, de autoritarismo, de sacrifícios desnecessários. Aliás, na minha concepção, o amor romântico é um artifício para que não vejamos o Amor real, é algo que nos confunde. Para começo de conversa, o amor romântico determina que devemos encontrar uma pessoa ideal que se encaixará perfeitamente nas nossas vidas e só seremos felizes quando isso acontecer, sem essa pessoa seríamos apenas metade de uma laranja. É aí que, por esperarmos alguém para nos completar, esquecemos de amar a nós mesmos e, quando conseguimos, somos vistos como egoístas. E mais, quando encontramos a suposta metade da laranja, esse amor deve superar todas as nossas outras relações, inclusive a que temos com nós mesmos, de modo que abrir mão de si vira prova de amor (como se o verdadeiro Amor precisasse de provas). Mais à frente, faço um texto sobre Amor Livre e a necessidade de desconstrução do amor romântico, mas o fato é que não, quando digo que o Amor pode curar o mundo, não estou sendo romântica.
E quanto a ser utópica? Curar o mundo? Parece papo de hippie pode crer, não é? Mas isso, como discurso, não me serve de nada. Para mim, Amor é prática, não teoria. Amor é se reconhecer no outro. Daí que vem a cura (e sim, o mundo está doente e não perceber isso é um dos piores sintomas). Se eu me reconheço no outro, não vou querer que ele sofra o que eu não quero sofrer. Se o outro sou eu, como posso querer que ele tenha menos oportunidades que eu? Se eu paro para sentir um pouquinho de empatia e "humanizar" meus inimigos, eu posso até não concordar com eles, mas não vou perder meu tempo disseminando discursos de ódio, vou é tentar entender e achar uma solução conjunta, sem disputas.
Isso quer dizer passividade? Creio que não. Sempre fui de luta, mas minha luta nunca foi cega. Sempre lutei por Amor, porque não suporto ver injustiça, porque não suporto ver o outro, que sou eu ou eu, que sou todos os outros, sendo maltratado só por ser quem é. No fim das contas, é uma luta por empatia sim senhor, porque só o que eu quero é que o outro se coloque no meu lugar. É uma luta por Amor. É claro que nem sempre vamos resolver a questão cantando mantras. É claro que às vezes teremos de ser duros para sermos ouvidos, mas o que queremos que ouçam é um "Eu também mereço. Eu também participo. Eu sou como você" e não uma disputa de poder. O grande problema que enfrentamos hoje em dia é que a luta por empatia tem sido esquecida e substituída pelo ciclo de ódio. Eu odeio quem me odeia e por ele sou odiado. E o ódio é multiplicado. E ninguém mais consegue se comunicar, porque o ódio é a ausência de Amor, é a impossibilidade de se reconhecer no outro, eu odeio tudo aquilo que não reconheço como sendo eu. E, no meio de tanto ódio, não lembramos mais pelo que lutamos, apenas lembramos de lutar. Todos os dias. Não queremos mais dialogar, porque o objetivo não é mais gerar empatia, fazer com que o outro entenda meu ponto de vista e vice-versa e tentar achar uma solução em comum. Só o que resta é a disputa incansável e insolúvel. E um mundo doente.
Pode parecer utopia da minha parte crer tão veementemente no Amor como solução para as feridas do mundo. Mas, graças a isso, consigo conversar e argumentar com pessoas com pontos de vista completamente diferentes dos meus e entendê-las e me fazer entender por elas, sem brigar. Com respeito troco de lugar com ela. Graças a isso, sou bem recebida em todas as partes, desde o bom dia da zeladora do prédio ao do funcionário de alto escalão. Porque eu sei que estou em todos eles e que, mesmo sendo única, todos eles também estão em mim. Posso sim ser uma iludida, ingênua e passiva, mas, na boa, o caminho do Amor anda funcionando muito bem na minha vida. E o caminho do ódio, será que funciona?




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Foi-se o tempo que havia tempo


Parei um instante para pensar o tempo. Em minhas aulas de literatura, tenho estudado bastante sobre a modernidade e como a noção de tempo se desfez do século XX pra cá. Faz todo o sentido. No século XX tivemos diversas guerras, incluindo as duas Guerras Mundiais, tivemos grandes colapsos financeiros, tivemos regimes totalitários por todo o mundo. Era uma vez alguém nascido no século XX que percebeu que a História acontecia enquanto se vivia, e não nos grandes livros e manuais do passado. Era uma vez a história presente. Foi quando se perguntou pela primeira vez: tempo? 

De um dia para o outro, já não havia mais respiro de um dia para o outro. Era uma vez uma carroça que se transformou num carro, era uma vez um carro que se transformou num trem, era uma vez um trem que se transformou num jato, era uma vez uma sonda no espaço... Espaço? De um dia para o outro eu atravessei o mundo. Romperam-se as distâncias. Deu em todos os jornais. O que eu ouvi do meu avô para contar aos meus netos, de repente, estava impresso — e nem era em revista quinzenal! Não bastava mais o cotidiano do jornal. Não bastava mais os boletins hora-em-hora da TV. De hoje em diante, a cada segundo tudo pode acontecer, é piscar o olho para não ver! O que aconteceu com o tempo?

Outro dia, desliguei o celular e descalcei os sapatos. Deitei na grama, acompanhada de um bom livro. E respirei. E me lembrei! O livro contava histórias sobre contadores de histórias. Respirei antepassados e uma infância sem relógios. Sabe-se lá quanto tempo durava a brincadeira.Sabe-se lá quantas horas eu passava dançando nos galhos de uma árvore, a devorar amoras feito passarinho. Sol batendo de mansinho no meu rosto, preguiça gostosa de não saber que horas são. Acordei da preguiça e decidi voltar. Depois de me reconectar com a terra, reconecto o celular. Ainda não sei quanto tempo passou, menos que o suficiente para terminar o livro. Mas os minutos, supostamente perdidos, me foram cobrados um por um. "Você não responde minhas mensagens?"; "Professor mandou e-mail com as próximas leituras"; "Mais uma reforma tramita no Congresso Nacional"; "Saiu o polêmico episódio daquela série que não vi"; "Aonde você estava?". Aonde eu estava? Aonde estamos todos nós? A cabeça nem sabe mais dar conta do tempo que já não temos. Mais uma vez se perguntou: tempo?


Hoje fui à aula de Estudos Literários e a professora me encantou. "Tempo é transformação", ela disse. O que chamamos de tempo já não pode ser determinado pelos ponteiros do relógio. Como se, hoje, minhas duas semanas não comportam mais nem duas horas do que era o tempo alguns anos atrás? Segundos e minutos são as mesmas unidades, mas, com a moderna correção monetária, já não valem quase nada. Sei que minha avó assistia semente dar flor sem a menor pressa. Hoje, compramos flores de plástico e ainda reclamamos da fila do mercado. Estamos sempre atrasados, mas nunca sabemos para quê. Voltando à aula de Estudos Literários (história da literatura e invisibilidades), me pergunto: como pensar o tempo se já extrapolamos o calendário? Quanto valeu o futuro? Quanto vai valer o passado? Era uma vez o tempo em que aproveitávamos o tempo, bendito passado dourado. Mas, se, em literatura, toda leitura é uma releitura, não há como existir passado, a menos que ele esteja presente. Paradoxos literários. Digamos mais, como é possível um passado dourado se, para sê-lo, ele precisa ser constantemente atualizado?

"Tempo é transformação", a professora falou, "Você escolhe a maneira como vai mudar". A verdade é que não existe progresso ou retrocesso, o que existe é a mudança. No fim das contas, o tempo nada mais é do que uma escolha. Já não envelheço de um ano para o outro, apenas me transformo, se para melhor ou pior, depende de como eu escolho mudar. Tempo é escolha e, quando não escolhemos, por ele somos arrastados. Também é uma escolha ficar estagnado e permitir que o mundo mude sem você. Tempo é movimento e, para não se perder no caminho, é bom ter sempre em mente para onde se está indo. E nunca se deixar parar. Até porque, teimar num canto e se deixar empoeirar não vai te impedir de mudar. É você quem escolhe no que vai se transformar.

"Atente ao tempo:
Não começa, não termina
É nunca, é sempre"





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Sobre como aprendi a voar

Salve, hipotético público do meu blog! Como podem ver, as coisas andam meio diferentes por aqui, como não poderia deixar de ser, já que agora eu sou uma Sarah inteiramente nova. Ainda ando cheia de opinião pra dar e receber, porque a gente muda, mas o ascendente continua sendo em Gêmeos, né? Mas andei colocando as asinhas de fora e, embora ressuscitando este tão querido diário virtual, há de se perceber que muita coisa na minha cabeça tem mudado nesses 4 anos desde a última vez que escrevi (graças a Deus), mas é claro que a essência da coisa e da Sarah continua a mesma (graças a Deus!).
Ultimamente tenho um monte de coisas sobre as quais quero escrever, mas, pra começo de conversa, quero contar como cheguei até aqui. Vamos lá, da última vez que estive por esse blog, eu era uma estudante de Comunicação Social, ligeiramente agnóstica e mentalmente perturbada por uma Síndrome do Pânico que já me fazia companhia desde a adolescência. Pois bem, a Sarah de hoje resolveu conquistar o sonho antigo de viver das Letras, carrega a Umbanda no coração e achou em si tamanha segurança em ser-se que já não deixa medo nenhum a dominar.
Como isso aconteceu? Sei lá, mas suspeito que foram anjos. Um dia meu irmão me contou que os anjos nada mais são do que pessoas que alcançaram o fundo do poço e tiveram de encarar seus maiores demônios, mas que, lá do meio de sua própria escuridão, conseguiram enxergar uma réstia de luz, pegar impulso lá do fundo e se jogar no melhor que se pode ser. De certo modo, foi isso que aconteceu comigo, fui descobrindo minhas asinhas de anjo e agora ando aprendendo a voar.
Em 2013, ainda dominada pelo pânico, fui a uma festa na rua com meu primo. Ouvi uma conversa sobre um tiroteio e meu coração começou a acelerar. Pouco depois soube que um homem havia sido baleado ali, naquela mesma rua, há alguns minutos. Senti a crise começar a bater. O ar me faltava, as extremidades começavam a tremer. Procurei meu primo imediatamente, eu precisava sair dali. Ele tinha bebido e dizia bem distraidamente que não poderia dirigir. Foi quando vi dois camburões repletos de policiais armados até as unhas, armas enormes, correndo pelo perímetro das quadras, provavelmente procurando o autor do disparo. Eu precisava sair dali. E se a crise batesse? Se eu perdesse o controle, ia acabar no chão, semi epilética, e não conseguiria sair daquela situação de risco. O medo de perder o controle foi o que me deu segurança para pegar a chave do carro do meu primo e nos levar pra casa, sem pensar duas vezes.
Passei o dia inteiro sem conseguir falar, estava traumatizada. Quem já viveu o pânico sabe que qualquer detalhe pode virar um gatilho. Quando estava em crise, eu não conseguia dormir, porque poderia morrer durante o sono. Às vezes tinha medo de levantar, porque poderia cair e bater a cabeça perigosamente, então acabava passando horas deitada imóvel... Enfim, eram as mais criativas possibilidades de ser ameaçada pelo mundo. Eu tinha medo de viver. No dia seguinte ao incidente, só a ideia de sair de casa já me evocava mil e uma balas perdidas. Fiquei preocupada com o que minha própria mente podia aprontar e mandei mensagem para o meu irmão explicando a situação, porque além de ser estudante de psicologia na época, ele sempre foi um grande mentor pra mim. Ao conversar comigo, meu irmão me questionou "Sarah, qual é seu sonho?". Eu não sabia qual era meu sonho, mas sabia que queria sair de Brasília e viver uma nova experiência em outra cidade, desde pequena eu tinha essa vontade. "Como você vai viver em outra cidade se você tem medo de andar na rua?". Aquilo me calou fundo. No mesmo dia, resolvi caminhar no fim de tarde. Há anos eu não saía àquela hora, porque tinha medo de sair de casa à noite. Respirei fundo e comecei a prestar atenção à minha volta. Não sei se vocês sabem, mas cada pôr do sol em Brasília é um espetáculo à parte, com todo aquele céu, com todas aquelas cores. Naquela paisagem linda, pessoas caminhavam tranquilamente. Tranquilamente! Então eu percebi "Sim, Sarah, qualquer coisa pode te matar, mas isso não é motivo para deixar de viver".
Quando aconteceu o tiro, fiquei traumatizada de certo modo. Mas, ao contrário do estresse pós-traumático, acho que tive o não tão famoso crescimento pós-traumático. Foi algo que me assustou tanto que me fez repensar a minha vida e querer me superar. A partir de então, tive meu processo de anjo e iniciei meu processo de saída do meu fundo de poço.
A partir de então, comecei a sair de casa, me soltar completamente. Conheci novas pessoas, me permiti acontecer. Foi quando conheci Bruninha, outro anjo, que há pouco tempo havia sofrido uma experiência muito similar à minha com o pai que, como minha mãe, havia perdido a luta para o câncer. A Bruna era minha vizinha e passou a me dar caronas para a UnB. Seu pai era escritor e professor de Letras, desde pequena ela estava acostumada a esse universo, foi mais que natural mostrar para ela minhas poesias, dizendo que um dia queria ser escritora. Um dia ela olhou pra mim com aqueles olhos capazes de ler sua alma inteira, e me falou convicta e sorridente "Sarah, você não vai ser escritora um dia, você já é! Você tá no curso errado, devia estar fazendo Letras!". Sim, a Bruna leu meu sonho estampado na minha cara que, até então, eu nunca tinha percebido.
Passei a pegar matérias de Letras junto com a Bruna, assim meu sonho foi se definindo diante de mim. Depois trabalhei no Centro Cultural do Banco do Brasil, onde pude conhecer a arte da mediação, trabalhando com públicos diversos. Era como se cada dia eu desse uma aula diferente. E isso me satisfazia completamente. Mais se define o sonho: sim, quero ser professora de português!
Mais ainda, além de definir um sonho e objetivo de vida, passei a equilibrar várias áreas da minha vida, estava me sentindo muito plena. Passei a fazer capoeira e yoga, trabalhando meu corpo e minha mente. Passei a frequentar semanalmente palestras de parapsicologia. Por fim, conheci meu terreiro de Umbanda e senti um enraizamento ancestral, passei a frequentar o terreiro 3 vezes por semana. Cada vez mais eu senti minhas plumas tornarem-se penas e, quando me senti pronta, resolvi tentar voar sozinha. Resolvi sair de Brasília e fazer um curso de Letras, logo passei no vestibular pra UFSC e me mudei para Florianópolis. E, há 1 ano e meio, tenho estudado o que realmente amo, aprendendo a me virar sozinha e, dia a dia, crescendo um pouquinho mais. É claro que ainda tenho mundos e universos para crescer, sei disso. Eu só dei o primeiro passo rumo ao meu sonho, mas consigo vê-lo e me recuso a perdê-lo de vista. Acho que a grande mudança que se operou em mim de lá pra cá, é que agora tenho consciência de quem nasci pra ser e não abro mão de jeito nenhum de tudo que vi em mim, de tudo que tive de superar para chegar até aqui e de tudo que aprendi nesse processo. Agora estou de volta, cheia de novos pontos de vista, e prontinha para dividir com vocês o que tenho visto nesses vôos, ainda desajeitados!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ninguém salvou Salve Jorge

Falar qualquer coisas sobre Salve Jorge a essa altura do campeonato é chutar cachorro morto. É possível que essa tenha sido a novela mais gongada da atualidade, mas, piadas a parte (e foram muitas), difícil mesmo foi desconsiderar minha constante indignação com a trama e me forçar a ver pelo menos um capítulo por semana. Vocês devem se lembrar do meu post sobre Missrepresentation, assumindo, é claro, que eu tenho leitores assíduos apesar da minha clara negligência com esse blog. Enfim, no post em questão eu falava sobre a falta de uma representação decente das mulheres na mídia, o que se deve em parte à falta de mulheres produtoras de conteúdo, temos poucas mulheres roteiristas de novela, por exemplo, e, de todas, creio que a mais famosa seja de fato a Glória Perez.

Olha, eu não gosto da Glória Perez. Pronto, falei! Tá certo, eu não conheço ela como pessoa e nem estou descartando a possibilidade dela ser super querida e gente boa e tudo o mais, mas vamos falar do trabalho dela, que é o que me interessa. Eu tenho uma preguiça enorme das novelas da Glória, primeiro porque sempre é aquela coisa de cultura estrangeira exótica, porém cheia de valores rígidos, figuras estereotipadas, além de um machismo tão last week que cansa só de pensar. A impressão que eu tenho é que toda novela dela é inspirada naqueles romances de papel de jornal, sabe? Tipo Sabrina, Júlia, sabe? Sem esquecer, é claro, do tema polêmico da vez.

Salve Jorge foi uma novela tão fail que eu fiquei sem nem saber que tipo de aspecto absurdo eu iria criticar. Eu não  soube se apresentava estereótipo por estereótipo das personagens femininas, como fiz em Fina Estampa. Não soube se apresentava a salada de frutas de personagens e polêmicas que a Glória tentou enfiar de uma vez na novela. Não soube se concentrava a crítica no casal principal da novela... Não sei, gente! To confusa! Mas acho que, de tudo o que me deixou indignada, vou dedicar esse post ao personagem inexplicavelmente amado por todas as mulheres da novela e tentar explicar por que, pelo amor de Deus, "o cara" NÃO é o Theo.

É claro que a minha impressão da novela não vai ser 100% acurada , até porque eu só tive estômago pra acompanha-la mais ou menos quando a trama já tinha passado da metade. Eu não vi a Morena ser traficada, não vi a história da quadrilha chefiada pela Lívia nem nada do tipo, só comecei a acompanhar depois que a Dona Helô McGiver escapa de um carro em chamas, então me desculpem se eu não abraçar os absurdos em sua plenitude.

Minha primeira e grande rixa é com a relação entre o Theo e a Lívia. Ok, eu entendo, a mulher trafica seres humanos, ela é má, ela deve pagar pelo que fez. Tá certo, sou a favor de punição para criminosos, mas eu pensaria em algo tipo cadeia. Já o Theo pensou numa punição mais radical: estupro. Na real, gente, a novela fala sobre tráfico de pessoas, com foco (se é que essa novela teve foco algum) na exploração sexual de mulheres. Em todos os capítulos que eu vi daquelas moças traficadas, lavando o chão ou dançando alegremente na boate (embora reze a lenda de que elas também foram prostituídas), nenhuma cena me chocou mais do que as cenas de sexo entre o Theo e a Lívia.

O mocinho simplesmente leva a vilã pra cama, acusa ela de ter matado a personagem da Carolina Dieckmann e, quando a Lívia brocha após tal acusação e diz "Sai daqui, vai embora, eu não quero mais", Theo dá uma chave de braço na mulher e transa com ela mesmo assim, entre pequenos estrangulamentos e mais gritos dela de "Sai daqui, eu não quero". Eu fiquei enojada com essa sequência, pra dizer o mínimo! Eu entendo a Glória Perez ter quisto pegar leve com a questão da exploração sexual das moças traficadas e optado por fazer apenas menção à prostituição e mostrar os programas só enquanto tá todo mundo vestido, negociando na rua. Ok, ela não quis chocar o povo. Mas mostrar a vilã sendo estuprada pelo "cara" tudo bem? Porque isso foi estupro, gente, desculpa, mas não tem outra palavra. Se uma mulher diz não em qualquer etapa do sexo, se ela pede pra parar e nega o consentimento em qualquer momento e mesmo assim o cara continua , à força, desculpa, colega, mas é estupro! E isso é uma questão muito séria! Isso acontece com mulheres no mundo inteiro todos os dias, gerando uma série de traumas e barreiras emocionais. Mas não no caso da Lívia Marine, não, a vilã fez foi se apaixonar por Theo como nunca se apaixonou por ninguém, porque "nunca um homem a dominou desse jeito". Sentiu o tamanho da irresponsabilidade, Glória?


Além da Lívia, Morena e Érica também passaram a novela inteira descontroladamente apaixonadas por esse homem! Um cara machista, violento, dominador, que mora com a mãe e trai todas elas em regime de rodízio! Se a gente for pensar na música do Roberto Carlos, que se refere a um cara obsessivo e controlador, do tipo que tende a cometer crimes passionais, então, sim, esse cara é o Theo. Quer dizer, só o fato de estuprar alguém já fala muito do caráter do personagem, mas ainda tem os agravantes. Theo estupra Lívia (e, desculpa, eu vou continuar chamando de estupro pra ver se alguém mais se toca que realmente foi isso que aconteceu, que é sério e que não pode passar batido!) depois de saber de todas as merdas que a malvada fez com o suposto amor de sua vida, Morena, para SE VINGAR! Ele estupra a moça má como vingança da honra da amada!!! E mais, ele faz isso enquanto está CASADO com Érica! Dá pra crer numa coisa dessas?

Daí eu penso, o final dessa novela foi revolucionário em uma coisa: a mocinha não teve final feliz. A Lívia foi pra cadeia, mas fica claro que ela vai acabar seduzindo um otário e saindo de lá sem cumprir a pena devida por todo o mal que fez. A Érica foi atropelada e perdeu o bebê que esperava, já que aborto não pode, mas tudo bem, porque ela acabou se apaixonando pelo cara que matou o bebê dela, que já é o marido dela na vida real então atropelar foi o de menos. Só que a coitada da Morena, gente, a coitada da Morena ficou com o Theo, que eu não dou nem um ano pra começar a agredir e trair o amor da vida dele a torto e à direita!

Olha, Glória, não é por nada não, mas se esse é o seu modelo de homem ideal, por favor, como um favor especial que você presta à humanidade: não compartilhe esse modelo com o resto do mundo, a gente não precisa disso!




sexta-feira, 8 de março de 2013

Seria um feliz dia da mulher se...


Quando eu era pequenininha, achava bacana essa história da mulher ter um dia só pra ela, um dia INTERNACIONAL, caramba, que demais! Daí a gente ganhava flores na escola e todos os meninos vinham nos dar parabéns. O encanto meio que se quebrou quando eu comecei a estudar o feminismo, uma coisa a gente tem de admitir, o feminismo quebra muitos daqueles encantos tão bem construídos pela nossa sacra ignorância. Foi há alguns anos que eu comecei a encarar o dia 8 de março como uma espécie de compensação completamente descompensada. Peraí, eu luto o ano inteiro pra não me encaixar em determinados padrões de beleza e de comportamento, pra não ser diferenciada dos demais seres humanos da face da Terra, e me vem uma galera separar um dia pra ressaltar justamente isso?

Não sou louca, não acho errado tirar pelo menos um dia para se tomar consciência das questões que as mulheres enfrentam unicamente por serem mulheres, pelo contrário. Mas não é disso que o 8 de março de trata, não é verdade? Chove mensagens de parabéns pra você que é mãe, pra você que é romântica, sensual, carinhosa, família, bonita, porque é isso que é ser mulher. Concordo, beleza, algumas de nós correspondem a algumas dessas características, que são mais expectativas do que elogios em si, mas não são todas e, mesmo as que são, não são apenas isso. É meio escroto pegar uma dia que homenageia as lutas pelos direitos das mulheres e transformar isso em mais uma tentativa de afirmação do que corresponde e do que não corresponde ao "ser mulher".




Seria muito bacana se, pelo menos hoje, nenhuma mulher sofresse preconceito por ser mulher. Seria bacana se, pra variar, ninguém usasse no trânsito a frase "tinha de ser mulher!". Seria fantástico se, pelo menos hoje, ninguém precisasse masculinizar uma mulher pra justificar sua competência profissional. Seria incrível se, hoje, ninguém julgasse o caráter de uma mulher pelas roupas que ela usa ou não usa. Seria maravilhoso se nenhuma mulher fosse estuprada ou assassinada hoje. Seria demais se nenhuma lésbica no mundo ouvisse hoje a frase "é lésbica porque não achou o homem certo". Se nenhuma de nós se sentisse coagida ou ameaçada ao andar na rua, se nenhuma de nós precisasse fazer o dobro do que os homens fazem pra justificar nosso salário, se nenhuma de nós que ganhasse uma promoção fosse acusada de ter dormido com o chefe, aliás, se nenhuma de nós sofresse qualquer tipo de abuso ou assédio. Seria magnífico se, só hoje, nenhuma menina fosse exposta precocemente a padrões irreais de beleza, aliás, se, pelo menos hoje, não existisse padrão de beleza algum.
Isso sim seria um dia pra comemorar. Pelo menos um dia no ano inteiro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Não sou pra casar

Fico me perguntando o que minha santa avó acharia dessa constatação, justo ela que passou tanto tempo tentando me ensinar como deve se comportar uma moça pra casar. Não queria ignorar aquela educação, que ela dirigiu especialmente pra mim, sua princesinha. Mas, que jeito, desobedeci.
Se a vovó soubesse que odeio lavar louça, será que ela ia pirar? E se ela soubesse que eu não sei me comportar? Sento de pernas abertas e falo palavrão, quase um vício de linguagem. E não mantive a castidade antes do casamento (que casamento?). E o pior, vó - não me arrependo!
Nem sempre obedeço e adoro dizer o que penso. Além disso, não sei dissimular. Uma moça direita deve manter o mistério, mas tudo isso me dá tanto tédio. Prefiro poupar meu tempo e ir direto ao ponto. Não sei jogar, coisa que, ouvi falar, complica qualquer matrimônio.
Mas se casamento for só fazer as vontades do meu marido,  eu passo. Desculpa, mas não tenho interesse em ser patrimônio de ninguém. Se alguém me quiser bem, tem que ser assim. Se não, tudo bem também.
Prometo manter o corpinho enquanto eu estiver afim, mas não vou fazer greve de fome só pra segurar homem. Prometo amar mais do que tudo e prometo me fazer feliz. Se, pra isso, uns e outros me chamarem de meretriz, prometo não me importar.
Não garanto que isso tudo me impeça de subir ao altar. Vai que um desavisado ache sexy esse meu gosto pela liberdade? E se ninguém achar, não me dou por perdida. Eu prefiro a vida sozinha, só minha, do que esperar até a morte pra me separar de alguém que não me diz nada.
Desculpe se fugi aos planos e cresci desgovernada.